Por que você se sente perdida depois de uma transição (e o que fazer)
Você planejou, fez as contas e saiu. Mas em vez do alívio, sentiu um vazio estranho e a dúvida: 'Será que eu errei?'
Será que eu errei?
Você planejou essa saída por meses. Juntou coragem, fez as contas, avisou todo mundo. E quando finalmente chegou o dia seguinte (aquele primeiro dia livre, sem reuniões, sem e-mails, sem cobranças) você esperava sentir alívio. Mas o que veio foi outra coisa: um vazio estranho, uma sensação de que algo está errado.
Talvez você esteja se perguntando: “É normal sentir que perdi o chão mesmo tendo planejado essa mudança?” Sim, querida. E não é só normal, é esperado. O que você está vivendo tem nome, tem explicação e tem saída: você está vivendo o caminho do meio entre uma fase e outra. Em geral, é o período mais turbulento de uma transição.
Esse é o caso de Marcela, que me mandou esta pergunta:
“Olga, saí do meu emprego há três semanas para me dedicar nos meus projetos pessoais e estou me sentindo perdida. Achei que ia me sentir aliviada, mas acordo todo dia com um aperto no peito. Parece que esqueci de fazer algo importante. Minha cabeça não para de perguntar: ‘e agora?’ Às vezes fico olhando pro celular esperando uma reunião que não vai mais acontecer. Todo mundo me pergunta o que vou fazer agora e eu não sei o que dizer. Será que eu errei? Como faço pra parar de me sentir assim? Como respondo quando perguntam o que estou fazendo agora?” — Marcela, 34 anos*
O meio do caminho
Querida Marcela, o que você sente não significa que você errou na sua decisão. Neste momento, três coisas estão acontecendo com você:
Abstinência da urgência: Seu corpo passou anos funcionando em ciclos de alta demanda, em que cada tarefa urgente cumprida te dava uma pequena dose de alívio, enquanto cada novo prazo acelerava os batimentos do coração. Agora que esse padrão foi interrompido, seu sistema nervoso está reagindo à ausência dos estímulos aos quais se adaptou. O aperto no peito e a sensação de que você esqueceu algo importante são sinais claros: seu corpo está se recalibrando. Ele funcionou em estado de alerta constante por tanto tempo que agora precisa reaprender a operar sem a urgência.
Crise de identidade profissional: é o momento em que você já não sabe mais quem é sem o seu trabalho ou título profissional. Durante anos, sua identidade esteve ancorada na agenda lotada, nos títulos e nas entregas. Quando isso desaparece, surge uma pergunta incômoda: “quem sou eu sem tudo isso?” A dificuldade em responder “o que você faz agora” revela que você ainda está aprendendo a existir sem a validação externa de um cargo que nunca foi seu.
Zona Neutra da transição: Você está no que William Bridges, psicólogo e autor do Modelo de Transição Bridges, chamou de “Zona Neutra”. Você não está mais no emprego antigo, mas ainda não chegou ao novo. É como soltar a barra antiga sem ter agarrado a próxima ainda. A confusão mental e a dúvida sobre sua própria capacidade são sinais de que você está passando por um grande processo de transformação.
Preencher o vazio piora a situação
A tentação de preencher o vazio rapidamente não vem só do medo de não ter resposta pronta quando perguntam o que você vai fazer a partir de agora. Vem de algo mais fundo. A crença silenciosa de que parar é falhar. De que cada dia sem produzir é um dia desperdiçado. De que você só existe quando está entregando algo tangível para o mundo.
Percebe o que acontece? Decisões tomadas no desespero de “resolver logo” carregam o senso da urgência, não da clareza. Quando você aceita aquele projeto que não faz sentido ou inicia um negócio sem convicção real, apenas troca uma prisão por outra. Respeitar esse intervalo (esse espaço vazio entre quem você era e quem está se tornando) permite que algo verdadeiramente novo nasça.
O desconforto faz parte do processo
Para ver com clareza, é preciso parar. Esta pausa não é um capricho: é uma etapa essencial de qualquer transição verdadeira. Você está em uma nova curva de aprendizado. E como toda curva, ela exige tempo e a capacidade de sustentar o desconforto.
É natural querer ter clareza sobre os próximos passos. Mas cuidado: esse espaço em branco não deve se transformar em combustível para a autocrítica. Você não está atrasada, não está perdendo tempo, não está falhando. Está se conhecendo de novo, como alguém que ainda está se descobrindo.
Enquanto espera pela clareza, reconheça tudo que você construiu até aqui. Reconheça a coragem que foi necessária para chegar onde está. Permita-se sentir o vazio sem preenchê-lo às pressas.
O desconforto que você sente agora é o espaço que você precisa para sustentar a sua nova fase, e é um sinal de que você está crescendo.
Você não precisa atravessar essa transição sozinha
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Referência: https://www.psychologytoday.com/us/blog/passion/201611/the-neutral-zone-the-fine-art-of-being-in-between



