Mudou de país e se sentiu sozinha? como atravessar a adaptação
Como acolher a solidão e construir raízes no novo lugar
Elena estava sentada no chão da sala, cercada por caixas fechadas. A luz da lua refletia no um piso de madeira, que rangia diferente do que ela conhecia. Não havia o cheiro de café da sua antiga cozinha, nem o barulho familiar do trânsito. Havia apenas um cheiro estranho de limpeza industrial e o som de uma sirene distante, que ela não sabia dizer se era polícia ou ambulância.
Ela passou meses organizando essa mudança internacional. Vistos, escolas, contratos. Tudo impecável. Mas ali, tentando montar um abajur com a ferramenta errada, sua competência parecia ter ficado no portão de embarque.
Olhou o celular: nada. O fuso horário transformava seus amigos em vozes do passado. Eles dormiam enquanto ela encarava a primeira madrugada sozinha. A sensação não era apenas de solidão. Era uma desorientação física, como se o tempo passasse em outro ritmo naquele lugar.
“Eu vim com a ideia de uma vida melhor, sonhava em morar neste lugar, mas sinto que não consigo encaixar. Todas as pessoas são muito diferentes de mim aqui”. Ela me contava.
O corpo chega de avião, a alma vem de barco
Oito de dezembro de 2005. Há exatos vinte anos, embarquei de Bogotá para o Brasil. Comigo, três filhos, malas e aquela mistura de esperança e medo. Eu buscava um futuro melhor, mas não sabia o tamanho da solidão que me esperava na chegada.
O que não imaginei é que a minha profissão, meu idioma, minha experiência seriam muito pouco relevantes nos meus primeiros anos aqui. Com uma mudança completa de papeis, a conversa mais duradoura que tinha com alguém fora de casa era com o zelador da rua.
Muitas mulheres que atendo mudam de país por motivos importantes: carreira, família ou qualidade de vida. Mas, ao escutá-las, percebo sempre o mesmo fio condutor: a solidão brutal do recomeço. É uma realidade que quem está de fora não vê.
A falta de apoio não é só uma questão logística. É o silêncio na hora do jantar. É não ter aquele olhar conhecido que te entende sem você precisar explicar nada. É perder a convivência diária quem nos conhece. É não ser reconhecida como parte do grupo, mas como estranha. Fomos feitas para conviver, para nos reconhecer no olhar do outro. Quando saímos da nossa rede de afetos, o corpo entra em alerta. O ambiente parece mais hostil porque perde suas referências.
Não é que você não saiba lidar com o novo trabalho ou a rotina. Você sabe. Mas a sua mente está ocupada demais tentando processar a estranheza das coisas simples: a luz do dia que agora é diferente, os costumes desconhecidos, as palavras escritas em placas que você não entende. Viver em outro país não é só mudar de endereço, é perder muito do que antes era tão familiar.
A Síndrome de Ulises
Quando a solidão se estende demais, ela passa a afetar o corpo de formas que nem sempre conseguimos nomear. Psicólogos especialistas em migração chamam esse fenômeno de Síndrome de Ulises.
Assim como o herói grego que vagou pelos mares tentando voltar para casa, a mulher que muda de país vive em um estado de alerta que não descansa. O corpo fica vigilante o tempo todo, tentando processar perdas simultâneas: a língua que já não sai com a mesma naturalidade, a paisagem que não reconhece mais como sua, o status social que ficou para trás e, principalmente, a rede de afetos que antes te sustentava.
Quando você não tem com quem compartilhar a estranheza do novo cotidiano, perde a certeza sobre o que está sentindo. A sensação de “não pertencimento” se instala e se amplifica. Você se sente uma impostora na nova vida e uma estrangeira na antiga.
Não há nada de errado com você. Seu corpo só está tentando te proteger enquanto aprende a navegar novas terras. Entender que esse estresse é uma resposta esperada é o primeiro passo para começar a traçar ações que diminuam o isolamento e te ajudem a recuperar, aos poucos, a sensação de estar em casa dentro de si mesma.
Pequenas âncoras para dias menos solitários
Muitas mulheres, como Elena, sentem-se perdidas emocionalmente ao migrar. Para se adaptar em um novo país e sentir-se um pouco mais em casa, algumas estratégias podem ajudar:
Você pode começar criando pequenas âncoras. Pode ser frequentar o mesmo café, no mesmo horário, permitindo que os rostos ao redor se tornem familiares. Inscreva-se em um grupo de leitura local, uma aula de algo que te interesse, ou qualquer atividade com encontros regulares. Não é só pelo conteúdo, mas pela repetição que acalma o corpo e cria uma sensação de pertencimento. Quando você reconhece e é reconhecida, mesmo que só com um aceno ou um sorriso, o seu corpo sente que está em um lugar seguro.
Lembre-se que sua necessidade de conexão é legítima. Experimente fazer convites pequenos e de baixo risco: um café de vinte minutos com uma colega, uma caminhada breve com outra mãe da escola do seu filho. Aos poucos, as atividades que antes você fazia sozinha passam a ser compartilhadas.
Experimente colocar no papel o que ficou para trás e o que está chegando. Faça uma lista simples: do lado esquerdo, escreva três coisas que você deixou para trás (um cheiro, um ritual, uma pessoa). Do lado direito, anote três descobertas do novo lugar (um sabor, uma paisagem, uma gentileza inesperada). Esse exercício não apaga a saudade, mas ajuda a mente a equilibrar a narrativa: você não está apenas perdendo, está também construindo. Reconhecer ambos os lados valida sua experiência e reduz a sensação de que tudo o que importava ficou para trás.
Observe com carinho se a solidão está afetando seu sono, sua saúde ou sua segurança. Nesses momentos, buscar apoio profissional é um gesto de cuidado consigo mesma. Um profissional com experiência em processos migratórios pode te ajudar a nomear o que você está sentindo, validar a complexidade do que você está atravessando e construir ferramentas práticas para lidar com o estresse.
Procure também estar entre mulheres que vivem o mesmo que você. Compartilhar sua história com quem entende pode quebrar o isolamento e acelerar sua adaptação.
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Referências: https://josebaachotegui.com/sindrome-de-ulises/



