Volta da maternidade: como valorizar seus novos potenciais
A culpa que você sente ao voltar não é fraqueza. É o sinal de uma transformação profunda que o mercado ainda não aprendeu a valorizar.
Renata, de 37 anos, sentiu o celular vibrar contra a madeira da mesa. Era a terceira vez em cinco minutos. Ela virou o celular para parar o toque porque sabia que era a babá perguntando sobre a temperatura do leite ou a manta azul. Mas, na sala silenciosa, aquele leve toque parecia um grito.
À sua frente, o diretor evitava seus olhos, fixando um ponto vago na parede.
— “Achamos melhor assim, Renata. Você vai trabalhar de casa, vamos reduzir a sua carga horária e o projeto fica com o Pedro agora. Entendemos que você tem outras prioridades no momento.” Disse o chefe.
Pedro, o júnior que ela treinara dois anos antes, sorriu de forma contida, enquanto recolhia as pastas que, até seis meses atrás, eram exclusivas da Renata.
Naquela tarde, às 18h em ponto, ao levantar para buscar a filha, sentiu o peso físico dos olhares no corredor. Eram olhares de gentileza tóxica sugerindo: “pobrezinha, ela não aguenta mais o ritmo”. Ela estava acostumada a ser a última a sair do trabalho, e agora, sair antes que todos era como se estivesse fazendo algo errado.
Ao chegar em casa, com a bebê finalmente dormindo, Renata abriu o laptop na cozinha, iluminada apenas pela luz azul da tela e o brilho amarelo da geladeira. Começou a responder e-mails antigos e revisar planilhas já aprovadas. Precisava gerar evidências digitais de sua existência. A culpa não era abstrata; era uma pressão física no peito. Culpa por sair às 18h. Culpa por estar no computador agora. Culpa por não saber o que escrever na caixa de texto do LinkedIn, onde o cursor piscava esperando uma atualização que nunca vinha.
Sabotando o próprio crescimento
A sensação de culpa aumentou três dias depois, diante de um convite inofensivo. Era uma palestra importante do setor, algo que a “Renata de antes” aceitaria com a adrenalina correndo nas veias.
— “Não tenho tempo hábil para me preparar”, digitou rapidamente e enviou.
Ao fechar a tela, a realidade se impôs. Ela não recusou por falta de tempo. Recusou porque sentia que não tinha mais nada interessante a dizer. O que parecia falta de assunto, na verdade, era a estranheza de falar com uma voz que já não existia mais. Ela ainda tentava performar a versão antiga de si, sem perceber que seu cérebro, seu corpo e sua identidade já estavam em outra fase.
Operava em modo de sobrevivência, tentando esconder a versão mãe para a versão profissional sobreviver, e escondendo a profissional para não se sentir uma mãe negligente. Essa divisão interna não era sinal de fraqueza, mas um dos efeitos mais dolorosos da transição que ela vivia.
Ela pedia desculpas por ter mudado, quando a mudança era a única coisa real e valiosa que tinha para oferecer.
Evolução, não retrocesso
Enquanto a narrativa consciente de Renata era de fracasso, sentindo que não dava mais conta, que perdeu o brilho, que não tinha mais nada relevante para dizer, a narrativa física era de especialização e potência. O que ela interpretava como “perda de capacidade” é, na verdade, um fenômeno neurobiológico sofisticado chamado matrescência.
Matrescência é o nome que a ciência dá ao processo de transformação que uma pessoa vive ao se tornar mãe: uma espécie de “adolescência da maternidade”, em que o cérebro, o corpo e a identidade passam por uma reconfiguração profunda.
Durante e após a gravidez, o cérebro da mulher passa por várias alterações. A sensação de menor capacidade ou esquecimento que muitas mulheres vivenciam ao engravidar não é um defeito, é o cérebro em obras, redistribuindo recursos para garantir proteção, cuidado e resposta rápida a riscos. Renata não perdeu competência; ela evoluiu sua estrutura para um novo nível de complexidade:
Áreas ligadas à empatia, leitura de nuances, vigilância e planejamento ficaram mais ativadas.
A atenção se tornou mais seletiva, porque precisa priorizar o que é vital para o bebê e para a sobrevivência da família.
O corpo ainda está em recuperação física e hormonal, o que intensifica emoções, sensibilidade e sensação de sobrecarga.
De fora, isso pode parecer “queda de performance”. Por dentro, é uma reorganização sofisticada: o sistema inteiro está recalibrando prioridades.
Renata não tinha “desaprendido” a falar em público. O que acontecia é que a narrativa da “profissional de antes” já não dava conta da nova complexidade que ela carregava. Ela não estava regredindo. Estava atravessando uma fase de desenvolvimento (a matrescência) que ampliava sua capacidade de perceber contextos, sustentar ambiguidade e tomar decisões mais alinhadas com o que realmente importa.
O problema não era a mudança em si, mas o fato de vivê-la como falha individual, em vez de reconhecê-la como um processo legítimo de evolução.
Um convite ao reencontro
Uma das minhas clientes mais recentes, ao voltar ao trabalho depois da segunda maternidade, sentia-se invisível, como se suas opiniões não valessem. Ela trabalhava em uma empresa pequena onde era a única mulher entre vários homens. Ela não estava apenas retomando um cargo. Está tentando reconciliar quem era “antes” com quem é “depois” de duas gestações, dois puerpérios, dois reajustes de vida.
Essa sensação de se tornar invisível ao voltar ao trabalho depois da segunda maternidade não é “drama individual”. É um efeito direto da matrescência vivida em um ambiente que não está preparado para enxergar a mulher-mãe como sujeito completo. Quando convidei essa cliente a reconhecer o seu olhar feminino e maternal como um diferencial – e não como um problema – o que estávamos fazendo, na prática, era ressignificar a própria matrescência como fonte de autoridade, e não como motivo de silêncio.
Ela saiu da culpa e da sensação de inadequação para uma posição de autora da sua própria experiência. Antes, ela se sentia pequena, invisível, quase pedindo desculpas por existir ali como mãe. Agora ela começou a experimentar a maternidade como algo que enriquece suas contribuições, não como algo que “atrapalha” o trabalho.
Cada mulher é única e passa pelo processo de uma forma única, mas eu quero te convidar a experimentar três pequenos movimentos de acolhimento:
Valide o que você está sentindo.
O que você sente é real e faz sentido. Você não precisa se envergonhar nem sentir culpa por isso.
Aprenda a colocar limites.
Defina as suas prioridades, o que você não está mais disposta a aceitar depois da maternidade e como deseja que sejam as dinâmicas, horários e cargas de trabalho.
Não passe por isso sozinha.
Reconheça que a matrescência não é um processo individual, é também um choque com um sistema que não foi desenhado para a mulher-mãe. Buscar rede de apoio não é fraqueza, é estratégia de sobrevivência: terapia, grupos de mães, amigas com quem você possa falar sem filtro, comunidades em que você possa ser vista como sujeito, não só como cuidadora.
Assuma sua nova potência
Sua volta ao trabalho não é um recomeço do zero. Você retorna com sentidos aguçados para leitura de ambiente e gestão de estresse que seus pares ainda não desenvolveram. A culpa é apenas um sinal indicando que você se importa. Ao regular essa emoção, você se torna mais capaz de ocupar o seu espaço.
Agora, eu te pergunto: para honrar essa nova fase, qual reunião desnecessária ou tarefa irrelevante você vai eliminar da sua agenda hoje para focar no que realmente nutre sua carreira e a sua vida? Compartilhe nos comentários!



